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sexta-feira, 7 de abril de 2017

Magricélia








Magricélia 


A maioria das pessoas que compõe a cidade de Salvador é advinda do interior da Bahia, gente que veio realizar o sonho de morar na capital, atraídas pelo fascínio urbano. 
Indivíduos que deixam tudo onde moram para vir tentar a sorte aqui, aspiram crescer e levar a vida num lugar melhor para seus filhos. 
Uma dessas pessoas é Magricélia, que já veio com uma mochila extra, ou melhor, uma criancinha chamada Antônio, sendo assim, designada de mãe solteira; como nos idos de antigamente isso era quase como um crime, uma vergonha para toda família, o mais sensato para ela foi sair pela tangente e tentar a vida na cidade dos sonhos dos interioranos baianos. 
Aqui ela conseguiu um cargo de costureira de confecção, passando, pois a montar o seu sonho, como ela era muito falante, comunicativa ao extremo, conseguia cativar todo mundo que passava por ali, num curto intervalo de tempo, ela parecia mandar mais do que a dona da confecção, pois era a âncora da loja. 
Algum tempo depois conheceu um policial com o mesmo nome do filho, o rapaz gostou tanto dos encantos da baixinha que terminou assumindo o filho xará e a sua falastrona mãezinha. 
Casaram-se em pouco tempo, morando num conjunto residencial apropriado para policiais, a nossa amiga radiante de felicidade tratou logo de realizar o grande sonho do marido, que era um filho macho. 
A lenda do filho homem começara por ali, teve a primeira chance, aparecendo uma menina, deram o nome de Dirce, dois anos depois eles tentaram novamente, surgindo mais uma menina, chamada de Caren, depois de tanta desilusão, foram desanimando e aceitando o que Deus reservou para eles. 
Mas o povo é um caso sério, fica ali encima massacrando, o policial dizendo que ele precisara ter um herdeiro, por conseguinte ele pressionava a esposa para ter mais um filho, só que ela não tinha aquela saúde perfeita, principalmente que já estava passando dos trinta anos de idade, e como na sua infância não era dada àquela alimentação perfeita, rejeitando todo tipo de leite, as doenças começaram a cobrar, os ossinhos ficaram quase tão frágeis quanto o de uma criancinha. 
Era pressão para tudo quanto era lado, a mulher adoecia tanto que chegou até a se aposentar por invalidez, restando somente o soldo do cônjuge, para sobreviver, o tímido marido quando cruzava com a cerveja passava a desmoralizá-la perante todos e o sonho da miúda foi se dissolvendo. 
Agora ela destinava somente os sonhos para Dirce, a única que gostava um pouquinho de estudar, a outra com ciúmes degringolou de vez, só chegava tarde da noite embriagada, cada dia com um homem diferente, apesar de não ser a rainha da beleza. 
Os anos se passaram e num desses encontros noturnos quando o marido ainda estava sóbrio, aconteceu o inesperado, a nossa amiga Magricélia, com toda aquela saúde frágil engravidou mais uma vez, sendo uma gravidez extremamente arriscada, já era quarentona, com problemas sérios de saúde, mas o milagre aconteceu, o sonho do casal de ter um garoto, foi enfim concretizado. 
A alegria voltou ao lar momentaneamente, pois o seu companheiro apesar de ter prometido nunca mais beber, não conseguiu separar-se da loira gelada. 
O garoto ganhou o nome de Michel, recebendo todo o amparo da família, mas quem realmente cuidava da criança era Dirce, pois sua mãe cansada de guerra, não conseguia passar uma semana sadia, um dia era dor nos ossos, outro dia era dor no coração, teve até principio de infarto, ao ver o seu companheiro escornado no chão molhado de urina. 
Para ela aquela foi a última gota d’água no garrafão da sua paciência, todos se reuniram e colocaram o marido para fora, que agora estava recém saído da corporação, aposentou-se e queria beber para esquecer a provável inatividade. 
Ele ficou morando a duas quadras da sua família, somente ia lá quando a sobriedade permitira, foi o pacto que fizeram. 
Até que o aposentado cumpriu perfeitamente, depois de alguns escândalos na frente da sua antiga residência, mas foi aceitando, os parâmetros que a sua filha Dirce tracara. 
Ele praticamente morava na antiga casa, com a desculpa de ver o seu filho Michel, o seu enteado que tinha o mesmo nome, morria de ciúmes, mesmo sendo adulto. O rapaz notava a diferença que fora tratado na sua infância por seu padrasto, apesar de toda aquela neurose, ele conseguiu passar no exército, ficando um bom tempo por lá, aposentando-se também por invalidez, por causa do coração, esse carma parecia mesmo ser de família. 
Mas Michel foi crescendo com todo dengo, ganhando presentes caríssimos, pajeado pela irmã mais velha, a sua segunda mãe. 
Em vista disso ele tornou-se um garoto mimado, não gostava de estudar e ainda por cima, começou a envolver-se com más influências, como essas três combinações são a verdadeira fórmula para a marginalidade, muita gente não esperava boa coisa partindo dele. 
O rapaz cresceu, mas nem o nível médio conseguiu concluir, os pais já cansados e idosos, não sabiam mais o que fazer com o filho, mas os presentes sempre apareciam, até motocicleta ele ganhou, mesmo sem dar nenhum retorno. 
Numa dessas noitadas ele arrumou uma encrenca, que não conseguiu sair, foi alvejado com dois tiros, um no coração outro na perna. 
Algumas pessoas arriscam dizer que foi dívida do tráfico, outras dizem que ele já estava montando o seu próprio negócio do pó e pedra, outros crédulos na inocência do rapaz, diziam que foi uma disputa por causa de algum rabo de saia perdido na noite. 
Os pais quando souberam, foi uma comoção total, a mãe baixou hospital, o pai não conseguiu dar uma palavra, Dirce tomou a responsabilidade para si, ainda conseguiu resolver os problemas, Caren até hoje não sabe o que aconteceu, sumiu no mundo, que ninguém consegue encontrar. 
Os sonhos de Magricélia foram intensos, o maior deles impingindo pelo marido, terminara assim, de repente, contudo o mais surpreendente mesmo, é que a sua filha desgarrada, agarrou um policial militar e está morando com ele a um ano na sua antiga cidade do interior, já tem até um filhinho recém nascido, que tem o mesmo nome do falecido tio. 


Marcelo de Oliveira Souza,iwa

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